Resposta rápida: A tributação de altas rendas em 2026 tem dois gatilhos: dividendos acima de R$ 50 mil por mês, pagos por uma mesma empresa, pagam 10% de Imposto de Renda na fonte (Lei 15.270/2025); e quem soma mais de R$ 600 mil de renda no ano cai no imposto mínimo (IRPFM), de até 10%. Salário comum não é atingido. Este tema se conecta ao salário e Remuneração 2026, que reúne o panorama completo sobre o assunto.
_Atualizado em 23 de junho de 2026._
O que mudou na tributação de altas rendas em 2026
Por quase 30 anos, lucros e dividendos foram isentos de Imposto de Renda no Brasil. Isso acabou. A Lei 15.270/2025, em vigor desde 1º de janeiro de 2026, criou dois mecanismos novos para cobrar mais de quem ganha muito — e usou essa arrecadação para bancar a isenção de quem ganha até R$ 5.000 por mês (veja como funciona a nova isenção do IR até R$ 5 mil).
São dois impostos diferentes, que podem (ou não) atingir a mesma pessoa:
- IR de 10% na fonte sobre dividendos altos, cobrado mês a mês.
- IRPF mínimo (IRPFM) sobre a renda anual acima de R$ 600 mil, acertado na declaração.
A boa notícia para a maioria: salário de carteira assinada não entra nessa conta nova. Quem ganha até R$ 5.000 ficou isento e quem ganha até R$ 7.350 paga menos. Os dois impostos novos miram dividendos e rendas muito altas.
Imposto de 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil/mês
A regra mais direta da nova tributação de dividendos 2026 é o IR na fonte. Desde janeiro, quando uma mesma empresa paga a uma mesma pessoa física mais de R$ 50 mil em lucros ou dividendos no mesmo mês, retém 10% de Imposto de Renda (art. 6º-A da Lei 9.250/1995, incluído pela Lei 15.270/2025).
Três detalhes mudam tudo nesse IR sobre lucros distribuídos:
- O teto é por empresa. Receber R$ 40 mil de uma empresa e R$ 40 mil de outra (R$ 80 mil no total) não dispara a retenção em nenhuma delas. O limite de R$ 50 mil conta CNPJ por CNPJ.
- Os 10% caem sobre o total, não só sobre o excesso. Se uma empresa paga R$ 80 mil num mês, os 10% incidem sobre os R$ 80 mil (R$ 8 mil) — e não apenas sobre o que passou de R$ 50 mil. A CNC questiona esse ponto no STF, mas a regra em vigor é essa.
- É só uma antecipação. Essa retenção não é o valor final do imposto. Ela é abatida na declaração do ano seguinte e pode até virar restituição, se a renda anual ficar abaixo de R$ 600 mil.
Para quem mora fora do Brasil, a conta é mais pesada: dividendos enviados ao exterior pagam 10% na fonte sem nenhum teto, já a partir do primeiro real.
IRPF mínimo: quem soma mais de R$ 600 mil no ano
O segundo mecanismo é o IRPF mínimo de R$ 600 mil para cima — o IRPFM. Ele não olha mês a mês: soma tudo o que a pessoa recebeu no ano (salário, pró-labore, aluguéis, dividendos, ganhos em investimentos) e garante uma alíquota mínima de imposto para o topo da pirâmide.
A lógica é simples. Muita gente de alta renda se remunerava quase só com dividendos isentos e pagava, na prática, algo como 2% a 5% de imposto — menos que a classe média. O IRPFM cria um piso para isso.
| Renda total no ano (todas as fontes) | Alíquota mínima (IRPFM) |
|---|---|
| Até R$ 600 mil | 0% — não se aplica |
| Entre R$ 600 mil e R$ 1,2 milhão | Cresce de 0% a 10% (fórmula: renda ÷ 60.000 − 10) |
| R$ 1,2 milhão ou mais | 10% |
Na faixa do meio, a alíquota sobe de forma suave. Alguns exemplos: R$ 720 mil no ano dão 2%; R$ 900 mil dão 5%; R$ 1,2 milhão dão os 10% cheios.
Atenção a uma palavra: mínimo. O IRPFM não se soma ao resto. Do valor apurado, descontam-se o IR já pago na declaração, o que foi retido na fonte e outros impostos sobre a mesma renda — e há ainda um redutor para evitar que a soma do imposto da empresa com o da pessoa ultrapasse as alíquotas normais. Quem já paga bastante IR (como um assalariado tributado em 27,5%) tende a não dever nada de IRPFM.
O IRPFM vale para o ano de 2026 e só aparece na declaração de 2027. Segundo o governo, cerca de 141 mil contribuintes — os de renda mais alta do país — devem ser alcançados.
Simulação por perfil: CLT alto, sócio PJ e dividendos
Quem realmente paga depende de como a renda chega. Veja três perfis comuns:
| Perfil | Recebe (exemplo) | IR de 10% na fonte? | Entra no IRPFM? |
|---|---|---|---|
| CLT alto | R$ 60 mil/mês de salário | Não — os 10% só atingem dividendos | Sim, mas o IR de até 27,5% já pago zera o mínimo |
| Sócio PJ | Pró-labore + dividendos abaixo de R$ 50 mil/mês por empresa | Não | Sim, se a renda do ano passar de R$ 600 mil |
| Dividendos altos | R$ 80 mil/mês de dividendos de uma só empresa | Sim — 10% sobre o total (R$ 8 mil/mês) | Sim, se a renda do ano passar de R$ 600 mil |
O detalhe que decide a conta é quanto de imposto você já paga. Como o IRPFM é um piso, se o IR retido ao longo do ano (no salário ou na fonte) já alcança a alíquota mínima da sua faixa, não sobra nada a pagar. Quem é assalariado, mesmo com salário alto, quase sempre já passa desse piso. Já quem vive de dividendos — antes isentos — é o verdadeiro alvo: é aí que o imposto novo aparece, seja na retenção mensal, seja na declaração de 2027.
E o sócio PJ? O lado tributário da pejotização
Aqui entra um ponto que interessa a todo trabalhador. Por anos, virar "PJ" foi vendido com um argumento forte: dividendos não pagavam imposto. Isso ajudou a empurrar gente para fora da CLT, na chamada pejotização.
A Lei 15.270/2025 muda essa matemática no topo. Se você foi "pejotizado" e ganha alto via dividendos, agora pode cair no IRPFM mesmo sem nenhuma retenção mensal — basta a renda do ano passar de R$ 600 mil. Já para quem ganha valores modestos como PJ, nada muda: dividendos abaixo de R$ 50 mil/mês continuam sem retenção, e renda anual abaixo de R$ 600 mil não tem IRPFM.
Vale lembrar que os juros sobre capital próprio (JCP), outra forma de remunerar sócios, também ficaram mais caros — o IR na fonte subiu de 15% para 17,5% em 2026 —, mas isso veio de outra lei, a LC 224/2025, e não da Lei 15.270.
Se você está decidindo entre os dois modelos, compare a conta completa no nosso guia PJ vs CLT em 2026 com calculadora reversa.
Simples Nacional: a briga ainda está no STF
Faltou a lei dizer, com todas as letras, o que acontece com as empresas do Simples Nacional. A Receita Federal entende que a retenção de 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil/mês vale para todo mundo, inclusive o Simples. Boa parte dos advogados discorda: argumenta que uma lei comum não pode revogar a isenção garantida pela Lei Complementar 123/2006.
O caso está no Supremo (ADIs 7912, 7914 e 7917). Em dezembro de 2025, o STF só prorrogou o prazo para aprovar dividendos de 2025 — de 31 de dezembro para 31 de janeiro de 2026 —, sem suspender a cobrança. Até meados de 2026, o mérito (inclusive a questão do Simples) seguia sem decisão final, com a Receita mantendo a exigência. Algumas empresas já obtiveram liminares na Justiça para não reter.
O que muda em 2026 (resumo)
- Desde janeiro: dividendos acima de R$ 50 mil/mês de uma mesma empresa pagam 10% na fonte.
- Desde janeiro: lucros enviados ao exterior pagam 10%, sem teto.
- No ano de 2026, acertado em 2027: renda anual acima de R$ 600 mil entra no IRPF mínimo (até 10%).
- Continua valendo: dividendos de lucros apurados até 2025 e aprovados até 31/01/2026 seguem isentos, mesmo que pagos até 2028.
- Em aberto: a aplicação ao Simples Nacional, ainda em julgamento no STF.
Se esse é o seu caso, a calculadora IRRF 2026 ajuda a estimar os valores envolvidos antes de qualquer decisão.
Fontes
- Lei nº 15.270, de 26 de novembro de 2025 — Planalto — http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/l15270.htm
- PL 1.087/2025 (texto com a fórmula do IRPFM, art. 16-A) — Planalto — https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/projetos/ato_2023_2026/2025/pl/pl-1087.htm
- "Receita Federal atualiza normas relativas ao IRPF" (IN RFB nº 2.299/2025; retenção de 10% e aplicação ao Simples Nacional) — Receita Federal, 18/12/2025 — https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/noticias/2025/dezembro/receita-federal-atualiza-normas-relativas-ao-imposto-sobre-a-renda-das-pessoas-fisicas
- "Nova Tabela do IR: faixas, alíquotas e isenção até R$ 5 mil" (IRPFM; estimativa de ~141 mil contribuintes) — Secom/Governo Federal, 24/01/2026 — https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/01/nova-tabela-do-ir-veja-faixas-e-aliquotas-e-saiba-mais-sobre-medida-que-isenta-o-pagamento-para-quem-ganha-ate-r-5-mil
- "STF prorroga prazo para aprovação de lucros e dividendos até 31 de janeiro de 2026" (ADIs 7912, 7914 e 7917) — STF, 26/12/2025 — https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/stf-prorroga-prazo-para-aprovacao-de-lucros-e-dividendos-ate-janeiro-de-2026/
- "STF julga prorrogação de prazo para aprovação de lucros e dividendos" (referendo da liminar e pedido de destaque) — Migalhas, 18/02/2026 — https://www.migalhas.com.br/quentes/449996/stf-julga-prorrogacao-de-prazo-para-aprovacao-de-lucros-e-dividendos
- "JCP tem base de cálculo restringida e IRRF majorado" (LC 224/2025; alíquota de 17,5% em 2026) — TAGD Advogados, 07/01/2026 — https://tagdlaw.com.br/jcp-tem-base-de-calculo-restringida-e-irrf-majorado/
- "IRPFM: tributação mínima para contribuintes de alta renda" (fórmula linear e base de cálculo) — Kimura Salmeron, 31/03/2026 — https://kimurasalmeron.com/2026/03/31/irpfm-tributacao-minima-para-contribuintes-de-alta-renda/