Como Provar Insalubridade: Laudo Técnico e Perícia na Justiça do Trabalho

Perícia técnica de insalubridade no trabalho — laudo e adicional pela NR-15 e CLT

O que é o laudo de insalubridade e por que ele decide a ação

O laudo de insalubridade é o documento técnico que diz, com base em medições no seu ambiente de trabalho, se você esteve exposto a agentes nocivos acima do limite e em que grau. A CLT é direta: o art. 195 exige que a caracterização seja feita por perícia, a cargo de médico do trabalho ou engenheiro de segurança do trabalho registrado no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

A Justiça do Trabalho adota o critério objetivo: o que se analisa é o ambiente, não a sua saúde. Basta a exposição acima dos limites de tolerância. São dois requisitos somados: (1) exposição a agente nocivo acima do limite, na forma do art. 189 da CLT; e (2) que o agente ou a atividade esteja na lista oficial da NR-15. Sobre isso, a Súmula 448, I, do TST é clara: não basta o laudo apontar insalubridade — a atividade precisa constar da relação oficial.

A perícia é obrigatória até mesmo quando a empresa não contesta (revelia). E negar a perícia, quando há pedido de insalubridade, gera cerceamento de defesa e pode anular a sentença.

Como pedir o laudo de insalubridade: o passo a passo da perícia

Você não contrata o perito por fora. O pedido entra na própria ação. Veja como funciona, na ordem:

  1. Ajuíze a reclamação trabalhista pedindo o adicional de insalubridade e, expressamente, a realização da perícia.
  2. O juiz nomeia o perito (art. 195, § 2º, da CLT), profissional de sua confiança e habilitado.
  3. Vistoria no local: o perito marca data e vai ao ambiente de trabalho observar a rotina, medir ruído, calor, agentes químicos ou avaliar agentes biológicos.
  4. Entrega do laudo: o perito conclui se há ou não insalubridade e qual o grau (mínimo, médio ou máximo).
  5. Manifestação das partes: você e a empresa podem impugnar o laudo e apresentar o parecer de um assistente técnico (um perito particular de cada lado).
  6. Sentença: o juiz não fica preso ao laudo (art. 479 do CPC), mas costuma seguir a conclusão técnica quando ela é bem fundamentada.

O perito de insalubridade: quem é e o que ele avalia

O perito de insalubridade é um médico do trabalho ou um engenheiro de segurança do trabalho registrado no MTE. Ele avalia o meio ambiente de trabalho, não a sua condição clínica.

Um ponto importante a seu favor: o perito pode encontrar um agente nocivo diferente do que você apontou na petição inicial, e isso não derruba o pedido. É o que diz a Súmula 293 do TST — você não precisa ser técnico para acertar de antemão o agente exato. Se você pediu por ruído e o perito encontrar calor, o direito segue de pé.

Você também pode indicar um assistente técnico de sua confiança para acompanhar a vistoria e fazer questionamentos ao laudo. Não é obrigatório, mas reforça a sua posição.

Documentos para juntar e reforçar a prova de insalubridade

Mesmo com a perícia sendo a prova principal, vale levar tudo que ajude o perito e o juiz a entender sua rotina, o tempo de exposição e o uso de EPI:

  • PPP (Perfil Profissiográfico Previdenciário)
  • LTCAT (Laudo Técnico das Condições Ambientais de Trabalho)
  • PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos, que substituiu o antigo PPRA em 2022) e PCMSO
  • Fichas de entrega e de fiscalização do uso de EPI
  • Contracheques, fotos do ambiente, e-mails e testemunhas

Sobre o EPI, atenção: se o equipamento de fato eliminou a nocividade e a empresa fiscalizou o uso, o adicional pode ser afastado (Súmula 80 do TST). Mas o simples fornecimento do EPI, sem controle, não tira o seu direito (Súmula 289 do TST).

E se a empresa fechou ou você saiu do emprego?

Não desista. Há dois caminhos consolidados:

  • Perícia por similaridade (ou perícia indireta): o perito avalia uma empresa do mesmo ramo, porte e atividade, quando não é mais possível periciar o local original.
  • Prova emprestada: usa-se um laudo já produzido em outro processo de um colega que exercia a mesma função, no mesmo local e época (art. 372 do CPC).

E vale lembrar que dá para cobrar os valores atrasados. Veja como cobrar o adicional de insalubridade retroativo dos últimos 5 anos, respeitada a prescrição de cinco anos do art. 7º, XXIX, da Constituição (até dois anos após a saída).

Quem paga o perito? (honorários periciais)

A regra geral está no art. 790-B da CLT: paga os honorários quem perde no objeto da perícia. Mas há uma proteção importante para o trabalhador:

  • Você tem justiça gratuita e a perícia foi desfavorável? Você não paga. A despesa fica com a União (STF, ADI 5766, de 2021; Súmula 457 do TST). Isso permite pedir a perícia sem medo da conta.
  • A perícia confirmou a insalubridade? Quem paga o perito é a empresa.

Tabela: graus e valores do adicional em 2026

GrauPercentualValor mensal em 2026*
Mínimo10%R$ 162,10
Médio20%R$ 324,20
Máximo40%R$ 648,40

\*Calculado sobre o salário mínimo de R$ 1.621 (Decreto 12.797/2025). A base de cálculo continua sendo o salário mínimo, e não o seu salário, salvo norma coletiva mais vantajosa — entendimento reafirmado pelo STF.

Insalubridade x periculosidade: não confunda

ItemInsalubridadePericulosidade
O que éExposição a agentes nocivos à saúde (ruído, calor, químicos, biológicos)Exposição a risco de morte (inflamáveis, explosivos, eletricidade, radiação, segurança)
Percentual10%, 20% ou 40%30%
Base de cálculoSalário mínimoSalário-base (seu salário)
Como se provaPerícia (art. 195)Perícia (art. 195)
Pode acumular?Não — você escolhe o mais vantajoso (art. 193, § 2º)Não — você escolhe o mais vantajoso

O que muda em 2026

Com o salário mínimo em R$ 1.621, os valores do adicional subiram (veja a tabela acima). A base de cálculo segue o salário mínimo: o STF voltou a confirmar esse entendimento em decisão de novembro de 2025, enquanto não houver lei ou acordo coletivo mais vantajoso. Outra novidade é a NR-1, que passou a exigir o gerenciamento de riscos psicossociais (assédio, sobrecarga), com fiscalização a partir de 26/05/2026 — mas isso, sozinho, não gera adicional de insalubridade, que continua preso à lista da NR-15.

Quer entender todos os seus direitos sobre ambiente de trabalho? Confira o nosso guia de segurança e saúde no trabalho.

Fontes primárias

Perguntas Frequentes

Dá para provar insalubridade sem perícia?

Em regra, não. O art. 195 da CLT torna a perícia obrigatória, mesmo se a empresa não contestar. Negar a perícia pode anular a sentença.

O EPI tira meu direito ao adicional?

Só se ele realmente eliminar a nocividade e a empresa fiscalizar o uso (Súmula 80 do TST). Entregar o EPI e não controlar não basta (Súmula 289).

Posso receber insalubridade e periculosidade ao mesmo tempo?

Não. Exposto às duas situações, você escolhe o adicional mais vantajoso (art. 193, § 2º, da CLT).

Limpo banheiro de uso público. Tenho grau máximo?

Pela Súmula 448, II, do TST, a higienização de banheiros de uso público ou coletivo de grande circulação dá direito ao grau máximo (40%). Banheiro de escritório não entra.

A empresa fechou. Ainda consigo provar?

Sim. Cabe perícia por similaridade (em empresa parecida) ou prova emprestada (laudo de outro processo de colega na mesma função).

Sobre qual valor incide o adicional?

Sobre o salário mínimo (R$ 1.621 em 2026), e não sobre o seu salário, salvo norma coletiva mais vantajosa — conforme o STF.